sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Energia para áreas remotas

Já está em fase de produção industrial um equipamento desenvolvido na Universidade Federal de Itajubá (Unifei), no Sul de Minas, que vai aproveitar a correnteza de pequenos rios para gerar energia. O hidrofólio, como foi batizado pelo seu criador, Geraldo Lúcio Tiago Filho, professor titular da universidade e secretário-executivo do Centro Nacional de Referência em Pequenas Centrais Hidrelétricas (Cerpch), trabalha em rios rasos e lentos, com velocidade de água menor que um metro por segundo. Pode ser aplicado em corredeiras, canais de fuga de centrais elétricas e pequenos cursos d’água. A quantidade de energia a ser produzida – até 15 quilowatts (kw) por unidade, conforme o comprimento do aparelho e a correnteza – pode atender à demanda de 15 famílias.

“O hidrofólio é inédito e foi criado para atender comunidades ribeirinhas isoladas que não têm acesso à energia”, explica Tiago Filho. O mapa da exclusão elétrica no país mostra que as pessoas sem acesso ao insumo vivem, em sua maior parte, em localidades onde o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é baixo. Cerca de 90% das famílias sem acesso à energia têm renda inferior a três salários mínimos e 80% estão no meio rural. Entre 2004 e 2008, o programa Luz para Todos, do governo federal, tirou da exclusão elétrica 1,8 milhão de famílias. Para o biênio 2009/2010 prevê atender 1,1 milhão de novos domicílios.


Fora dessa meta, porém, restaram ao menos 168 mil famílias sem luz. Elas estão espalhadas em estados como Amazonas, Bahia e Minas Gerais e somente poderão ser atendidas a partir de 2011. A sobra, segundo as distribuidoras de energia e os comitês gestores do programa, se divide em 37 mil famílias em Minas Gerais, 41 mil no Amazonas e 90 mil na Bahia. Esse déficit não inclui os novos domicílios erguidos em áreas já atendidas com sistema de energia elétrica, dentro do chamado crescimento vegetativo, que ficaram de fora do programa por conta do alto custo das ligações, da insuficiência de material e de mão de obra na região.

Nascido da necessidade de gerar energia a partir de correntezas de baixa intensidade nos rios, o perfil funciona como uma asa de avião, só que submerso na água. O correspondente do equipamento num avião é o aerofólio. É ele que permite a sustentação do avião no ar. Dentro da água, um aparelho desse tipo passa a se chamar hidrofólio. O funcionamento é simples. A água passa pelo equipamento e ele é empurrado para cima. Quando isso acontece, um dispositivo armado faz a asa girar, perdendo a sustentação, e ela volta a cair. “Isso provoca um movimento oscilatório de cima para baixo”, explica o professor.

Segundo ele, esse movimento é transferido para uma haste articulada, que funciona como um braço do hidrofólio. Isso aciona um gerador instalado dentro do perfil e transforma a correnteza do rio em energia elétrica. A largura do equipamento depende do porte do rio ou do percurso da água e a energia produzida é usada para carregar baterias que podem suprir a necessidade de pequenas comunidades ribeirinhas. “O Sistema Interligado Nacional gera energia e a conecta à rede de transmissão. Quando o sistema é isolado, é necessário garantir uma energia da qual não se dispõe”, observa o professor. A solução permitida pelo hidrofólio é gerar energia a partir de pequenos cursos de água, armazenando-a numa espécie de banco de bateria. “Quando a demanda está alta, a comunidade usa a bateria. Quando está baixa, o sistema recarrega a bateria”, ensina.

O professor conta que os testes de funcionamento do perfil duraram um ano. Agora, o aparelho está sendo desenvolvido comercialmente, dentro de um programa da própria Unifei. “Conseguimos financiamento para melhorar a qualidade do produto, que hoje já tem concepção industrial.” Em 2010, uma empresa incubada na universidade começará a fabricar o hidrofólio. A expectativa é que um equipamento de 1kW seja vendido no mercado por cerca de R$ 14 mil. Os clientes potenciais são as concessionárias de energia, que, segundo a legislação em vigor, têm a obrigação de fornecer o insumo para as comunidades rurais. A expectativa, segundo ele, é atender aos programas de energia alternativa das próprias concessionárias. “Em comparação com os gastos para levar uma linha de transmissão a esses rincões, o hidrofólio sai muito mais barato”, garante Tiago Filho.
Fonte: Jornal Estado de Minas - 27/11/09 - 1o. Caderno - pág. 22

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